Ano Sacerdotal e Adolfo Kolping
Artigo publicado por Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues, Arcebispo de Sorocaba - SP
Ano sacerdotal (I)
No dia 19 passado teve início o Ano Sacerdotal, instituído pelo Santo Padre Bento XVI. Seu objetivo é reavivar nos sacerdotes e fieis o apeço por esse grande dom de Cristo à Igreja: o sacerdócio dos padres. Escrevo hoje sobre o Padre Adolfo Kolping (1813 – 1865), fundador da Obra educativa que leva seu sobrenome: a Obra Kolping. O Pe. Adolfo Kolping idealizou e concretizou sua obra como resposta aos graves problemas produzidos pelo processo de industrialização. A massa de trabalhadores, desenraizados de sua cultura de origem, sem consciência de classe, em condições de vida aviltantes, foi objeto da caridade sacerdotal de Pe. Adolfo Kolping, tendo experimentado, também ele, a violência da situação. Pe. Paulo Link, assistente eclesiástico da Obra no Brasil, assim descreve a iniciativa do Pe. Kolping: “Adolfo Kolping procurou dar uma resposta a essa situação lutando pela melhoria das condições materiais de vida dos trabalhadores. Ele deu à Associação que fundara um cunho eminentemente educativo, voltando-se para a organização de centros comunitários onde num ambiente de camaradagem, os jovens operários se formassem para a profissão, para a família, para uma vida honesta e religiosa e para seu engajamento na sociedade”. Nascido em família pobre, mas cheia de fé, Kolping assim expressou seu pensamento sobre a família: “A salvação do ser humano começa com o restabelecimento do vínculo mais forte que eles mantêm entre si: o vínculo familiar”. Aos treze anos, diante da impossibilidade de continuar seus estudos, Kolping se tornou sapateiro. Aos dezenove anos mudou-se de sua cidade natal – Kerpen – para Colônia onde se aperfeiçoou na arte de confeccionar sapatos. Foi onde pôde constatar as profundas transformações por que passavam os jovens operários em razão da industrialização crescente. “Nas grandes oficinas – conta o Pe. Kolping – não encontrei um único ajudante que vivesse de maneira ordeira. Encontrei, sim, verdadeiros monstros de imoralidade. E mestre algum se importava com tal situação”. Em julho de 1833, morre sua mãe. Foi dolorosa a perda daquela que em seu coração “reavivava sempre o fogo do amor e da fé em Deus”. Anos mais tarde, Kolping assim se refere ao fato: “Perdi minha mãe num momento em que ela me parecia insubstituível. Mas, na verdade não a perdi...Experimentei sua proteção de tal forma que não posso deixar de agradecer a Deus o fato de ter levado minha mãe para junto dele no momento exato em que ela precisava de um poder ainda maior para proteger-me”.Trabalhando em uma pequena indústria de sapatos, Kolping ganhou a confiança de seu mestre sapateiro, participando de todas as decisões da pequena industria. Entretanto, Kolping orava e pedia a Deus luzes sobre seu futuro. O ideal sacerdotal lhe morava no coração. Esse ideal foi mais forte que a tentação de uma vida burguesa que sua competência profissional poderia possibilitar-lhe. Mas quem lhe pagaria os estudos? Orava a Nossa Senhora sem cessar. No meio de tantas tensões ele adoece e volta a Kerpen. Seu pai o apoiou em seu desejo. O pároco, entretanto, lhe dizia: “sapateiro, a teus sapatos”. O pároco da cidade vizinha o encorajou. Volta a Colônia onde continua seus estudos, trabalhando para completar o que a bolsa de estudos lhe oferecia. Kolping muito sofreu com acesso de tosse com vômitos de sangue. Assim descreve ele uma hemorragia sofrida em 1838: “naquela época sentia no meu peito o alento da morte. Torrentes de sangue dos pulmões feridos não denunciavam outra coisa”. Ajudado pelo patrão de seu pai, Kolping pode estudar teologia em Munique e, depois, na Universidade de Bonn, participando ativamente das grandes discussões culturais da época. Foi ordenado padre no dia 13 de abril de 1845. Ante do início da liturgia de sua ordenação recebeu a notícia da parte de seus irmãos: ‘o papai morreu esta noite’. ” Terminada a ordenação, foi a Kerpen sepultar o próprio pai. Sua vida de pastor ele a iniciou na cidade de Elberfeld. A industrialização, nessa cidade, produzia suas conseqüências nefastas: “Há milhares de famílias sem trabalho e sem pão. Nunca se viu nesta região tanta lamentação e tanta miséria entre o povo. Os operários vagueiam, em grandes grupos, pedindo ajuda, trabalho e comida sem que ninguém possa atender suas necessidades”. Foi quando surgiu, por iniciativa de um grupo de católicos, a “Associação de Jovens Católicos Operários”, tendo no Prof. Breuer seu idealizador. Era uma associação de caráter educativo, social e recreativo. Pe. Kolping assumiu essa obra, abandonando o trabalho acadêmico do qual tanto gostava. Animava-o a fé em Deus: “A fé em Deus nos faz acreditar no homem, apesar de sua miséria. Quanto mais vivemos esta fé tanto mais ela cresce”. O trabalho do Pe. Kolping coincide com o lançamento do Manifesto Comunista em 1848. Marx pensava que a fé em Deus era, ela mesma, miséria, expressão definitiva da miséria real. Kolping pensava justamente o contrário.(continua)
Ano Sacerdotal (II)
No último artigo para essa coluna descrevíamos a trajetória do Pe.Kolping, operário que se tornou sacerdote, e que, fiel às suas origens e à fé recebida de seus pais, levou avante um trabalho de resgate da dignidade do trabalhador, vítima de um processo de industrialização que ignorava os reclamos da dignidade humana. Pe. Kolping quer expandir seu movimento e começa por Colônia, centro da região em franco processo de industrialização. Aos seis de maio, na mesma hora em que Marx se dirigia aos operários em Colônia, Pe. Kolping se reunia com um grupo de sete jovens que constituíram a primeira comunidade Kolping. Um deles depois comentou: “Nós não o conhecíamos, mas algo de especial irradiava dele. Estávamos pendentes de sua palavra, nossos corações batiam mais fortes”. Kolping assume sua missão junto dos jovens operários com carinho de pai. “No verão de 1849 – conta o Pe. Paulo Link – ocorreu em Colônia uma epidemia de cólera. Onde quer que se precisasse de ajuda ali estava Kolping. Durante três meses trabalhou no hospital da cidade. Ajudava nos curativos e acompanhava os moribundos”. O espírito que deveria reinar em suas comunidades foi assim proposto por ele: “A comunidade deve ser para seus membros como uma casa de família onde se sintam à vontade entre amigos em situação de igualdade e onde o convívio permita a troca de alegrias e tristezas”.Sua obra cresceu rapidamente. Quando o Pe. Adolfo Kolping morreu eram 24.600 seus membros e 418 as comunidades espalhadas pela Alemanha e por outros países da Europa. “A expansão da Obra, tão rápida, estava assegurada por uma boa organização inicial: com estatutos, infra-estrutura, autonomia das fundações e o princípio democrático de participação. Na Associação nunca se alimentou o paternalismo, nem os artesãos foram utilizados para servir aos interesses do clero. Respeitava-se de fato a própria iniciativa, a liberdade dos grupos e a consciência individual. Kolping não queria uma confraria religiosa, mas uma associação civil que servisse para apoiar a auto-organização dos jovens artesãos”, informa-nos o Pe. Paulo Link. O trabalho do Pe. Kolping foi aprovado por Pio IX que o recebeu em audiência. A saúde do Pe. Kolping, que nunca foi boa, foi se tornando mais frágil, a tal ponto que foi com grande esforço que pronunciou seu último discurso quando da inauguração do novo albergue de Colônia, em 17.09.1865. Seus pulmões foram perdendo sua capacidade respiratória. Aos quatro de dezembro de 1865, seu coração pára de bater, quando tinha apenas 52 anos de idade. “A Obra de Adolfo Kolping continua crescendo e ainda hoje está em ascensão. Reconhecidamente ele continua sendo, até nossos dias, um autêntico líder social, um pai acreditado, amado pelo povo e venerado por muitos como um santo”(Cardeal Hoeffner). João Paulo II, ainda Arcebispo de Cracóvia, visitando seu túmulo disse: “Esperamos que o Pe. Adolfo Kolping seja beatificado e canonizado, pois, em nossa época, personalidade como a de kolping é para servir de guia e exemplo”. O próprio João Paulo II declara-o Bem-aventurado aos 27 de outubro de 1991. Na homilia de sua beatificação João Paulo II assim fala sobre ele: “Pode-se afirmar que a leitura do evangelho de hoje – a cura de um cego – se encontra de modo particular com a vida e com a atividade deste sacerdote generoso, que no século passado projetou a luz do evangelho sobre a sempre difícil questão da justiça social nas relações entre trabalho e capital...” E mais adiante: “As sombras da injustiça e da exploração, do ódio e da humilhação dos seres humanos dominavam a situação dos artesãos e dos operários das fábricas do séc. XIX. Adolfo Kolping se ocupou antes de tudo dos seres humanos. Não em primeiro lugar se mudam as estruturas, mas sim os homens. Inspirado pela fé em Deus, que quer a felicidade de todos os homens, Kolping iniciou uma paciente obra de educação. Com sua pregação e seus escritos ele procurou dar espaço e voz ao evangelho do trabalho que se tornou para ele e para sua obra o campo de atividade por um cristianismo sempre mais próximo do mundo dos trabalhadores”. Fazemos nossas as palavras com as quais o Santo Padre João Paulo II terminou sua homilia: “Agradecemos ao senhor Ressuscitado que, em um momento oportuno da história, chamou seu sevo Adolfo Kolping para ser servidor fiel e prudente do ‘Evangelho Social’: o Evangelho dos direitos do trabalhador, o Evangelho da dignidade do trabalho humano. Agradecemos a Cristo porque neste dia o Servo de Deus Adolfo Kolping está sendo elevado à glória dos altares como Bem-aventurado da Igreja. Assim seja!” As primeiras Comunidades Kolping vieram ao Brasil através de imigrantes alemães. Está presente em quase todos os Estados da Federação. Em Sorocaba temos uma Comunidade atuante no Bairro do Éden. Neste ano sacerdotal alegra-nos e nos anima o exemplo de pastor que foi o Pe, Kolping, modelo de amor a Deus, à Igreja e aos pobres.
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